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Conceito e preconceito

por LYA LUFT
Revista Veja

Preconceito e campanhas antipreconceito são o item da moda. Porque tudo é moda, mania, às vezes obsessão passageira. Sempre, também em meus romances e contos, combati preconceito: contra os de pele diferente ou outros olhos, cabelo assim ou assado, baixinhos, gordos, menos inteligentes, com qualquer dificuldade física ou lesão mental, ou jeito de amar. Preconceito é inato no ser humano, nasce do medo do diferente, exige lucidez e esforço para ser vencido. Em meu mais recente livro, A Riqueza do Mundo, tenho um capitulo inteiro falando nisso. Se alguém diz que "brancos de olhos azuis" são responsáveis por problemas do país, eu me sinto grandemente atacada. Não posso ser questionada porque há quase três séculos meus antepassados vieram da Europa, não da África, e também não eram índios.


Não acredito em campanhas governamentais pró-anti-qualquer preconceito. Penso que o governo não deve fazer campanhas nesse sentido, mas garantir, de saída e por princípio, o direito de qualquer pessoa ao respeito e dignidade próprios, em todas as questões, desde comida, saúde, escola, moradia, até privacidade e intimidade. Aos diferentes sobretudo, mas a questão inicial é: quem estabelece o padrão do "diferente", e "diferente" do quê? Aliás, nossa intimidade anda em segundo plano nesta sociedade, nesta cultura do escrachado, da calça arriada, do olhar devassador (e devastador) estimulado pela internet que eu tanto uso com outros fins.

Por que não tentamos ser simplesmente naturais? Por que achar que somos melhores que os outros, que nossas ideias, postura ou tendências são as que todos deviam seguir? Por que não aceitamos o outro como ele é, quem sabe gago, tímido, gordo, baixo, alto demais, magro demais, talvez lento de raciocínio, possivelmente de outra raça ou credo, ou pobre, ou amando lá do seu jeito? Sem o tratar como coitadinho, que é o que em geral as campanhas fazem - algumas bem - intencionadas. Posso estar errada. Muitas vezes me engano. Não tenho todas as informações. Mas tenho voz nesta coluna, então tento partilhar minhas inquietações. Por isso, aliás, escrevo.

Precisamos preparar nossas crianças, em casa - onde tudo começa, repito mais uma vez, eu que sou repetidora do que me apaixona ou assusta -, na escola, nos grupos, mesmo na universidade, para a aceitação, a parceria em relação a tudo e todos - menos o crime, a corrupção, o mau caráter, o cinismo e a violência. Isto deveria ser natural, até banal, cotidiano, caseiro, constante: respeitar o outro. E começar respeitando a si próprio, sua dignidade, seu corpo, sua natureza, suas possibilidades. Suas dificuldades.

De propósito não estou me prendendo a questões de orientação sexual, mas a tudo: assexuados, sexuados demais, pobres, ricos, obtusos ou de cérebros sofisticados, com tênis de grife ou cambaios, de pele escura ou clarinha - filhos de doutor ou de catador -, todos somos pobres humanos querendo apoio e valorização, tantas vezes submetidos a interesses não confessados de quem no fundo está desinteressado ou expostos à futilidade alheia. A vida já é bem difícil, sobretudo para os jovens que entram neste mundo atrapalhado no qual alguns ditam as regras (que muitas vezes eles mesmos não seguem), comandam o circo, enveredam por caminhos sem conhecer direito o destino e inventam modas sem saber as consequências. O poder, o mando, são pesada carga. Deviam nos fazer, a cada passo, parar um pouco para refletir: sei do que estou falando, conheço o que estou ordenando, entendi qual será o efeito disso que permito ou que estimulo em cada momento?

Não é difícil iniciar e comandar alguma campanha. Há quem grite que não se deve ter "nenhum preconceito, contra coisa nenhuma". Vamos com calma. Não se pode igualar tudo. Não simpatizo com o dono da verdade, o libertário sem causa, o herói sem preconceitos, o discurso fácil. Eu, sinceramente, tenho - mantenho - preconceito contra algumas coisas: a desonestidade. a arrogância, a irresponsabilidade, o culto do poder estão entre elas.

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