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08 Maio 1945

Data da capitulação alemã, o dia 8 de maio de 1945 é de fundamental importância para a História mundial. Pesquisadores a comparam com a Reforma Protestante e a Revolução Francesa. Durante longo tempo, sua importância para a Alemanha do pós-guerra foi um tema controvertido. Nos últimos 20 anos, o questionamento sobre "libertação ou derrota dos alemães" foi substituído pela comercialização da memória da guerra e do Holocausto. 




"Agora tremulam as bandeiras da liberdade sobre toda a Europa", anunciou o então presidente norte-americano Harry Truman, num pronunciamento transmitido pelo rádio no dia 8 de maio de 1945, após a capitulação incondicional dos alemães. A data marcou o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa. "O mundo agora está livre do ditador Adolf Hitler", acrescentou Truman.
Embora as bandeiras da liberdade tremulassem também na Alemanha, ainda durante várias décadas se discutiu se de fato o país havia sido libertado. Ou teria sido uma derrota, com o declínio total das ideias e objetivos alemães?

Discurso de Weizsäcker
A polêmica sobre derrota ou libertação foi amenizada com um memorável pronunciamento do então presidente alemão Richard von Weizsäcker diante do Parlamento em Bonn. Por ocasião dos 40 anos do final da Segunda Guerra Mundial, ele salientou que "o 8 de maio foi um dia de libertação. Ele libertou todos nós das crueldades do déspota sistema nacional-socialista".
  Segundo o historiador berlinense Wolfgang Wippermann, esta forma de interpretação do passado é amplamente difundida hoje, 60 anos após o final do conflito: "Este foi um processo muito longo e penoso, mas finalmente bem-sucedido". Apesar de o 8 de maio de 1945 ser lembrado como o dia da libertação, ele não é uma data para festas, observou Weizsäcker. Este mesmo aspecto voltou a ser lembrado dez anos mais tarde pelo filósofo Hermann Lübbe. Neste dia significativo, os alemães fazem bem em se conter, escreveu Lübbe num artigo para a revista Focus. Hoje, alguns dos vencedores da guerra são seus aliados ou parceiros na União Européia. Isto desperta a vontade de participar dos festejos. No entanto, a vitória comemorada na Grã-Bretanha é a vitória sobre a Alemanha. E a libertação lembrada pelos holandeses é sua libertação do domínio alemão.

Marco histórico
Em todos os países a data tem uma enorme importância, salienta Wippermann, professor de História da Universidade Livre de Berlim. Ela representa um marco na história mundial. Este dia assinala o começo de uma nova história contemporânea e pode ser comparado à Reforma Protestante, à Revolução Francesa e à Revolução Russa.
"A 8 de maio de 1945 foi iniciado um novo tempo, encerrando uma era terrível: a do fascismo", ressaltou Wippermann. Embora a data seja vista como uma referência histórica, não se tratou de uma "hora zero" para os alemães, salienta. Muitos dos que faziam parte da elite do Terceiro Reich prosseguiram sua carreira, sem interrupções.

O historiador exemplifica: após 1945, trabalharam no Ministério das Relações Exteriores mais ex-filiados ao partido nazista do que nos anos anteriores. "Foi ingênuo desejar que no 8 de maio a História de certa forma tivesse um fim e nós, por assim dizer, nascêssemos de novo. Com o passar do tempo, deixamos de ver a Segunda Guerra Mundial e seu término, em primeira linha, como uma catástrofe para o próprio país", destacou Wippermann.

Catástrofe
Apesar das enormes perdas que os alemães sofreram, da penúria, dos banimentos e do descrédito moral, a verdadeira catástrofe foi o Holocausto, o crime cometido contra o povo judeu. "O genocídio contra os judeus", ressaltou Weizsäcker em seu pronunciamento no Bundestag, "não tem precedentes na História". Seis milhões de judeus foram vitimados pela guerra de extermínio praticada pelo regime nazista.

Sessenta anos após o final do conflito, finalmente também são corrigidos aqueles que durante muito tempo temeram um fim furtivo da memória dos horrores da guerra, por causa do número cada vez menor de testemunhas da época. "Nunca se falou tanto de Hitler", constatou o semanário Die Zeit em setembro de 2004. A forte presença do Führer na mídia, sentida em todo o país, é a maior em 60 anos, observou o jornal.

Popularização da guerra
Também Wippermann tem esta impressão. Para ele, o debate político sobre este capítulo histórico está praticamente encerrado. Seu lugar foi assumido pela comercialização do Holocausto e da guerra. Segundo Wippermann, uma prova disso é o grande êxito dos documentários sobre o conflito divulgados pela rede de televisão alemã ZDF. Nos documentários, o historiador Guido Knopp conseguiu levar este capítulo da História a grande parte da população alemã. Mesmo assim, os filmes foram terrivelmente comercializados. O que se vê hoje é uma banalização da História. 
Fonte: DW

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