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Caos em quatro rodas

Já havia postado algo sobre transito e o esse tema urbano ainda me intriga, principalmente por conviver com sistemas de transportes urbanos antagônicos - Paris versus São Paulo. Hoje o governo liberou o IPI dos carros novos. Tudo muito bom, tudo muito bem, todos felizes e contentes com o novo poder de consumo da nação brasileira. Mas e agora, José? 





Quando houver alguém reclamando sentado confortavelmente dentro de seu carro sobre o excesso de veículos nas ruas, será que irá lembrar como foram parar lá? Cada um pensa somente no "seu", mas esquece que a soma de todos os "seus" resulta em "nossos". Somos interdependentes, ensina o budismo, e o caos já paira sobre as quatro rodas do individualismo.

De forma alguma proclamo aqui o carro como um vilão urbano, longe disso, adoro dirigir e sinto falta de ter um, apesar de não precisar! Mas a maneira com que nos relacionamos com ele é que virou um grande problema. De um lado, nossas cidades são desprovidas de coletivos de qualidade, pontual e de logística concisa, detalhes que valorizam o transporte urbano como o caso da capital japonesa, onde conheci. Por outro lado, o brasileiro gosta do status "individual". O "coletivo" é mal visto, tem conotação de massa proletária. Curioso ver que países ricos como Suécia, Japão e Holanda, seus cidadãos não se sentem diminuídos por andar de bicicleta ou metrô. 

Certamente, há que se fazer um imenso planejamento em paralelo e não simplesmente tirar os carros da rua, como foi a tentativa do rodizio em São Paulo, e por todo mundo dentro da atual realidade de transportes. Precisamos mudar essa cultura que transporte coletivo é coisa de gente pobre.

"Não dá mais, sobre o pretexto de criar empregos e arrecadar impostos, disseminar essa cultura sobre rodas individuais e viver essa doença de levar três horas até seu emprego", disse o cientista politico no jornal ontem.

Enquanto muitos países pensam em soluções para os problemas urbanos criados com a venda de carros, a gente vai fazer o mesmo erro para depois lá no futuro procurar estas mesmas soluções. Diminuir o valor do IPI só irá aumentar o caos dentro das cidades por conta do crescente número de veículos que cada um deseja ter.

O fato é que há negligência de investimentos no transporte urbano por conta do faturamento das industrias automobilísticas, matemática simples, não tem mistério. E até que ponto essa irresponsabilidade fantasma ou disfarçada terá validade na dinâmica urbana?

A França alguns anos atrás, como não bastasse sua malha centenária e copiosa de metro, ônibus e trens urbanos, adotou o sistema Velib de locação de bicicletas. Deu tanto certo que agora foi a vez do Autolib com carros elétricos. E mesmo assim, ainda há muito congestionamento nos horários de pico. É como uma grande roda de pedra, um processo lento que levou tempo para girar e agora precisa desacelerar e com urgência.



Isso tudo me lembra a cena de um cachorro correndo atrás do rabo. Ideias alternativas existem, no pior das hipóteses é só copiar...

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